Saber Ver

31-May- 2007

Dia Mundial da Criança

 

O Menino Grande

Também eu, também eu.

joguei às escondidas, fiz baloiços,

tive bolas, berlindes, papagaios,

automóveis de corda, cavalinhos…

Depois cresci,

tornei-me do tamanho que hoje tenho;

os brinquedos perdi-os, os meus bibes

deixaram de servir-me.

Mas nem tudo se foi:

ficou-me,

dos tempos de menino

esta alegria ingénua

perante as coisas novas

e esta vontade de brincar. 

Vida!,

não me venhas roubar o meu tesoiro:

não te importes que eu ria,

que eu salte como dantes.

E se eu riscar os muros

ou quebrar algum vidro

ralha, ralha comigo, mas de manso… 

(Eu tinha um bibe azul…

Tinha berlindes,

tinha bolas, cavalos, papagaios…

A minha Mãe ralhava assim como quem beija…

E quantas vezes eu, só pra ouvi-la

ralhar, parti os vidros da janela

e desenhei bonecos na parede…) 

Vida!, ralha também,

ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,

como se fosse ainda a minha Mãe…

(Sebastião da Gama)

 

1 de Junho…Dia Mundial da Criança. De todas elas!

Só que continuam muitas sem saber o que é isso de se ser criança. E, lembro aqui, de forma especial, todas as que vivem em campos de refugiados, as escravizadas, as que morrem de fome e de doença, as que não são nunca seres humanos com a dignidade que merecem.Essas, que nunca saberão o que é ser criança mas, que nunca saberão o que é ser adulto também!

Estes dias exigem que, a par dos festejos às nossas crianças, sensibilizemos quem nos rodeia para aquelas que são discriminadas. Mesmo na nossa sociedade europeia vão surgindo, clandestinamente, posturas abomináveis de maus-tratos infantis.

Às vezes, não podemos fazer muito, mas devemos alertar e lembrar que nem todas comemoram este Dia Mundial.

Como seria bom que, cada uma delas, pudesse um dia ler com um ternurento saudosismo, este poema de Sebastião da Gama!

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28-May- 2007

Recreio

Há blogues que são autênticas janelas para o mundo. Outros há que, deslumbram pela beleza das imagens, embalam pela sonoridade. Outros são diários sofridos,jornais virtuais, receitas eróticas… O meu…O meu era um cantinho pacato. De repente senti que nasceu nele um "recreio", onde muitos adolescentes vieram brincar. E, foram-se juntando como quem faz uma grande roda e, vão "chutando" letras do alfabeto uns aos outros. Dessa brincadeira foram ficando opiniões juvenis.Mas, tudo por causa das provas de aferição.

Estejam atentos para quando tocar para dentro, não levarem essas letras misturadas para as aulas! recreio é recreio e, português é português! Passem bem!

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27-May- 2007

O Poeta beija tudo

O poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade…

E diz assim: "É preciso saber olhar…"

E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos…

E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás…

E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha…
E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso…

E acha que tudo é importante…

E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim…

E reparou que os homens estavam tristes…

E escreveu uns versos que começam desta maneira: "O segredo é amar…"

(Sebastião da Gama)

                                                                                     

Este poema deu-me o braço e ficou a passear comigo…Nesse passeio surgiu-me o ânimo e uma consolação. Sebastião pegou-me ao colo e as recordações surgiram…

Faz quatro anos que comprei, na “Feira do Livro”de 2003, o Diário de Sebastião da Gama. Comprei-o por indicação de uma professora do ensino primário de Perafita (Matosinhos), já aposentada, com 83 anos nessa altura, mas com uma sabedoria e uma cultura geral invejáveis. Daquelas pessoas com quem dá gosto estar a conversar horas a fio.
Essa professora, que tive a sorte de conhecer, chama-se Helena Sampaio.
Hoje lembrei-me dela, quando li o poema. Hoje vou iniciar essa leitura.

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21-May- 2007

Sonho

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte-
Os beijos merecidos da verdade.

Fernando Pessoa

 

Quero voltar a apanhar os sonhos, a sentir alegria, e com paz no olhar, ver o essencial.
O desânimo cercou-me mas, tenho que voltar a acreditar em novas esperanças.

 

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20-May- 2007

Deixei de ser Mãe…

O meu nome está mencionado como mãe, no Bilhete de Identidade de dois cidadãos portugueses, já com a maioridade, que vivem na mesma morada que eu. De que vale isso?
Não me sinto mãe!
O que foi para mim uma alegria, um prazer, um privilégio, um encanto, uma ligação e uma realização, transformou-se num vazio e numa dor. Outrora sentia uma alegria interior ao olhá-los…via-os para alem desse olhar. E, nessa contemplação todos os sentimentos convergiam numa visão transformadora desses sujeitos reais em algo completamente invisível para outros observadores.

 “Só o olhar comovido ou aquecido penetra, por identificante simpatia, no objecto contemplado.”
Teixeira de Pascoaes

Hoje vejo os rostos fechados, ás vezes tristes, proferindo num timbre duro, palavras irritadas, sem sorrisos a dar cor ao rosto e brilho aos olhos. Sei que há pensamentos sufocados dentro das suas mentes, mas eles não os compartilham, não dialogam. Esses laços de ternura e confiança entre progenitora e filhos, desfizeram-se para sempre, dando lugar a barreiras, muros…

Sou demasiado pequena para os derrubar ou ultrapassar. Fico apenas com o meu nome, olhando-os como a estranhos, pelas fendas desses muros.

Sirvo como mãe utilitária. Mas, isso não é ser mãe!!! Isso é ser uma empregada doméstica de há muitos anos, com quem se tem à vontade.Hoje tinha que desabafar!

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19-May- 2007

Provas de Aferição


“As Provas de Aferição de Língua Portuguesa e de Matemática dos 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico visam avaliar o modo como os objectivos e as competências essenciais de cada ciclo estão a ser alcançados pelo sistema de ensino. A informação que os resultados destas provas fornecem mostra-se relevante para todos os intervenientes no sistema educativo, alunos, pais, encarregados de educação, professores, administração e para os cidadãos em geral. Estes resultados permitem uma monitorização da eficácia do sistema de ensino, devendo ser objecto de uma reflexão ao nível de escola que contribua para alterar práticas em sala de aula, que assim podem e devem ser ajustadas de modo sustentado.

 

Ano de 2007

No corrente ano lectivo, as provas de aferição serão aplicadas a todos os alunos matriculados nos quarto e sexto anos de escolaridade, de acordo com o Despacho n.º 2351/2007, de 14 de Fevereiro, Série II. As provas realizar-se-ão nos dias 22 e 24 de Maio e incidem sobre Língua Portuguesa e Matemática. “          

(GAVE Gabinete de Avaliação Educacional)

O processo desenvolver-se-á, de acordo com a dinâmica de cada Agrupamento de escolas. Há Escolas do 1º ciclo, com Jardins de infância integrados, que apenas funcionarão para as crianças do pré-escolar. Então, na sala, a Educadora explica a razão de irem estar sós na Escola e, uma menina despachada diz:

“Já sei que não vai haver escola para os meninos grandes, porque vão ser as provas da aflição."

emoticon

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18-May- 2007

Escreve-me…

 

 

Escreve-me! Ainda que seja só

Uma palavra, uma palavra apenas,

Suave como o teu nome e casta

Como um perfume casto d’açucenas!

 

Escreve-me! Há tanto, tanto tempo

Que te não vejo, amor! Meu coração

Morreu já, e, no mundo aos pobres mortos

Ninguém nega uma frase de oração!

 

“Amo-te”cinco letras pequeninas,

Folhas leves e tenras de boninas,

Um poema d’amor e felicidade!

 

Não queres mandar-me esta palavra apenas?

Olha manda então…brandas…serenas…

Cinco pétalas roxas de saudade…

 

Florbela Espanca

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15-May- 2007

A vida …o sofrimento…

 Hoje, sinto a tristeza a crescer dentro de mim e, a transbordar pelo olhar. E, sinto uma dor forte, estranha e, talvez irracional a percorrer o meu ser. Este amor maternal sofre pelo fim de um começo…
Ficou um amor pequenino, abandonado, por ser vivido.
Quando vai a enterrar? Não quero lá estar!    

 Viver não dói                                                                   

 Definitivo,   como  tudo  o  que  é  simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se  cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O  certo  seria  a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo  feliz.

Sofremos porquê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi  desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas  projecções irrealizadas,
por todas as  cidades que gostaríamos
de  ter  conhecido ao  lado do nosso amor
e não  conhecemos,
por todos os filhos  que
gostaríamos  de  ter  tido junto e não tivemos,
por todos os shows  e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os  beijos  cancelados,
pela eternidade.  

Sofremos não porque
nosso  trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as  horas livres
que  deixamos  de  ter para ir ao  cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.


Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro  está sendo
confiscado  de  nós,  
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi  vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me  convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada  arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é  inevitável.
O sofrimento é  opcional.  

 Carlos Drummond de Andrade                               

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14-May- 2007

Dia internacional da família

A ONU  declarou o dia 15 de Maio como o Dia Internacional da Família.
Se pensarmos, não há um conceito único de família, nem um consenso universal em torno da sua definição. As transformações sociais foram enormes e os conceitos vão-se modificando, também. E, por isso mesmo, cada vez mais tenho relutância em comemorar, nas escolas, dias comerciais estabelecidos, tais como os Dias do pai e da Mãe como se fossem algo de uma importância vital. Dias que pretendem ser comemorados, de forma homogénea, por TODAS as crianças, independentemente da composição da família ou grupo doméstico a que pertencem. E, para quê? Porquê? Não interessam as razões! É bonito ver a criançada levar um presente feito “em série”, mesmo que seja para um pai que não têm, mesmo que a criança more num Internato ou com os avós. Essas, crê-se que são uma pequena minoria …paciência!

 

A escola não tem que viver em ruptura com a sociedade consumista mas, não pode conviver pacífica e passivamente com o que é contraditório á sua acção e aos seus objectivos. A escola enquanto primeiro espaço de vida em grupo, numa perspectiva, também, inclusiva e multicultural deve promover a consciência de diferentes perspectivas e atitudes de respeito pela diferença. Deve com coerência desenvolver educação.

Mas, se considerarmos a família um grupo de pessoas, ou grupos domésticos ligados normalmente por descendência e assumindo uma dada organização teremos que considerar de imediato que pode ter várias estruturas tais como nuclear, ampliada, assim como famílias alternativas e mono parentais. Em todos os casos a família é a instituição nuclear da sociedade. É na família que aprendemos os valores que nos hão-de guiar ao longo da nossa vida.

 É nesta multiplicidade de famílias e culturas que as pessoas e, em especial as crianças, recebem o afecto, o apoio físico e financeiro para sobreviverem.
Então, hoje fará muito mais sentido valorizar este dia, do que os que já apontei. Todos têm família mas, nem todos têm pai ou mãe.

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13-May- 2007

Ver…

Olhar…“Sem simpatia não há compreensão, não há luz nos olhos nem transparência nas coisas. Ver é ver amorosamente. O ódio é cego, diz o povo. E a indiferença? Não vê, nem deixa ver; olha…
Lembra uma sala vazia, com duas janelas abertas.”…

Teixeira de Pascoaes

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