Há muito que deixei de contar a Fábula tão conhecida da “Cigarra e a Formiga”.
Gosto de partilhar histórias que me encantam e pelas quais tenho um carinho especial.
Essas são sem duvida as melhores histórias que conto, que prendem os olhares infantis, aquietam o corpo e fazem espreguiçar no fim…ficam a bailar no pensamento.
Mas a fábula da”Cigarra e a Formiga”, sempre me causou algum embaraço, perdoem-me La Fontaine e Bocage! De embaraço passou a repulsa quando o Jornal ”Expresso”resolveu publicar uma colecção de Fábulas desse autor francês, em pequenos livros (incluindo CD) e com breves comentários à moral da história. A moral desta fábula foi feita por Luísa Ducla Soares, escritora que aprecio! Mas, não apreciei os seus comentários! Esperava algo mais!
Penso que na sociedade precisamos de formigas trabalhadoras, sérias e profissionais mas, também precisamos de artistas para embelezar o mundo. As cigarras não são inúteis…também alegram os outros.
Por outro lado a forma implacável, cruel e sem sentimento com que a formiga tratou a cigarra, não é nada exemplar para uma conduta de aceitação do outro(diferente) e de compreensão pelos eventuais erros. E, hoje há muitas formigas por aí a infernizar os outros. Há-as muito “sérias”, em cargos de destaque, a vigarizar o Estado e a explorar outras formigas inferiores…ou cigarras escravizadas?
Felizmente, ao ler o Diário de Sebastião da Gama, encontrei uma abordagem a esta fábula com a qual me identifico:
“…que se louve o espírito de ordem e de trabalho da formiga, está bem; mas que se louve a sua desumanidade, a crueldade da sua recusa, o requinte da sua maldade, isso é imoral e pouco pedagógico…os meus moços acharam que nem devemos trabalhar só, nem devemos apenas brincar; que a Cigarra não é inútil, como não é inútil Beethoven, nem João de Deus, nem o pintassilgo nosso vizinho”.
Passaram tantos anos e eu vivi num desconhecimento completo. Afinal já alguém tinha sido advogado de defesa da cigarra!…Ainda bem!
A contar esta fábula, será nesta versão mais crítica de Mário Pederneiras.
A CIGARRA E A FORMIGA
Dona Formiga
Pertence à classe das senhoras sérias,
Tem cuidado da casa e do alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.
Além de tudo, é de ambições modestas,
Todo o seu bem, no seu labor converte
E faz da vida ideias esquisitas…
Não faz visitas
E não se diverte…
Nunca se viu, Dona Formiga, em festas.
De tanto se ocupar da vida e do futuro
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cómica;
Pois, mesmo assim, nos amplos e massudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de económica.
Trabalha muito no pesado Estio,
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o Frio
E cessa a lida,
Já ela está com a dispensa cheia.
Dona Cigarra - esta, coitada!
Não vale nada
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
Da sua Alma de estroina e vagabunda…
Entretanto,
Dona Cigarra, eu sei, passa misérias.
É da boémia a mais perfeita imagem,
Adora a luz e mora na folhagem…
E tal a vida é e tal a aceita,
Sempre de sonhos e ilusões repleta…
Dona Cigarra até parece feita
Da própria massa de que é feito o Poeta!
Passa o Verão… E o véu do Estio,
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre;
Torna-se a Vida mais penosa e séria…
Dona Cigarra não resiste ao frio
E, coitadinha, morre
E morre, quase sempre, na miséria.
Contam, que um dia,
Morta, do Sol, a límpida alegria,
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar
Um pedaço de pão do seu celeiro…
Como a Formiga, então lhe perguntasse
Onde se achava
E o que fizera na estação passada,
Honestamente, disse que cantava…
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…
Por isso, é que eu não gosto da Formiga.
Mário Pederneiras in
Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida, 1912