24-Jul- 2007
21-Jul- 2007
Uma paixão chamada Rubem Alves
Descobri Rubem Alves há cerca de 5 anos. Não me lembro muito bem como foi…li uma citação dele num texto que abordava aspectos educativos. O meu encanto foi tal que, ao ver à venda o seu livro “Estórias maravilhosas de quem gosta de ensinar”, o comprei de imediato. A partir dessa leitura fiquei apaixonada pelas suas ideias e visões do mundo. Eu sempre tive uma postura mais poética e sensível da vida. Sempre achei importante observar e reflectir. A minha postura como educadora estava para além das pedagogias, passava pelo amor. E identifiquei-me completamente com Rubem quando li que “educador e seus discípulos estão ligados por laços de amor”.
Não sabia bem a sua biografia, nem tão pouco o seu aspecto físico, a sua idade…mas, quando se está apaixonada, nada disso importa por não ser o essencial, mas,…Descobri que é um velho sábio que já desfez 73 anos, teve formação religiosa protestante e chegou a formar-se em Teologia. Foi considerado subversivo e, por isso, perseguido o que o levou a ir com a família para os Estados Unidos. Lá formou-se em Filosofia. Regressou ao Brasil nos anos 70 do século passado e, foi professor na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). No início da década de 80, tornou-se Psicanalista. E, escreve sem nunca ter planeado fazê-lo…é um dos seus prazeres.
Para além de tudo isto é uma curiosa (para mim agradável) coincidência ter uma filha Raquel Alves.
Ontem vi-o, pela primeira vez, em imagens que hoje aqui partilho.
Perguntas
Os ladrões vivem
nas águas furtadas?
O peito do pé usa soutien?
Em que carpintaria funciona
a Serra da Estrela?
Quando se come um prego,
fica-se com ferrugem na barriga?
Em que mês aparecem
andorinhas no céu da boca?
O Sumo Pontífice é feito
de que sumo?
Em que guerra foi usado
o peixe espada?
Luísa Ducla Soares
18-Jul- 2007
Instituições…Totais
Segundo Goffman, “uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada". Essas instituições totais não permitem qualquer contacto entre o internado e o mundo exterior, até porque o objectivo é excluí-lo completamente do mundo originário, a fim de que o internado absorva totalmente as regras internas.
Essas instituições podem ser divididas em cinco tipos:
1. “instituições criadas para cuidar das pessoas que, segundo se pensa, são incapazes e inofensivas”
2. “locais estabelecidos para cuidar de pessoas consideradas incapazes de cuidar de si mesmas e que são também uma ameaça à comunidade, embora de maneira não intencional…”
3. instituição total organizada para “proteger a comunidade contra perigos intencionais, e o bem-estar das pessoas assim isoladas não constitui o problema imediato…”
4. “instituições estabelecidas com a intenção de realizar de modo mais adequado alguma tarefa de trabalho, e que se justificam apenas através de tais fundamentos instrumentais”
5. “os estabelecimentos destinados a servir de refúgio do mundo, embora muitas vezes sirvam também como locais de instrução para os religiosos”
Estes meus comentários incidirão sobre as instituições totais, vulgarmente chamadas de "prisões" ou "Centros Educativos de menores", que correspondem à terceira definição de Goffman em que os reclusos estão privados de liberdade por punição.
Nestes locais temos um grande grupo de internados (grupo controlado) e uma pequena equipa de supervisão (grupo dirigente). O internado vive na instituição e tem contacto restrito com o mundo existente fora das suas paredes.
Quando o indivíduo é admitido pela instituição chega com uma “cultura aparente”, que deve ser “destreinada”.
No momento de entrada, o aprisionado será sujeito a um momento de privação da sua aparência usual e dos seus objectos pessoais. Normalmente é um processo de admissão padronizado em que o indivíduo "recebe um número", é-lhe tirada fotografia, impressões digitais, distribuídas roupas da instituição, resumindo, um verdadeiro processo de profanação do próprio eu e, de perda de identidade. Na realidade ele ficará circunscrito a um lugar fechado, onde terá que realizar todo tipo de aspectos que no exterior ocupam diferentes lugares. Por outro lado, está sob forte controlo, realizando em conjunto grande parte das actividades e rotinas segundo regras e horários rigorosos e sem direito à intimidade.
O processo de admissão desenvolve “as boas vindas” quer pela equipa de dirigentes, quer pelo grupo de reclusos. Pelo testemunho que tive oportunidade de ouvir pelo dirigente de um Centro Educativo, parece haver por parte dos técnicos e dos monitores um acompanhamento mais sistemático dos recém-chegados por forma a “enquadrá-los” de forma “arrumada”. Por outro lado o grupo dos internados procura mostrar ao novo elemento como ele tem uma posição baixa.
Podemos considerar, segundo Goffman que a pessoa em causa inicia um "processo de mortificação do eu" que pode manifestar-se com uma perda do sentido de segurança pessoal, que a leva a afastar-se de problemas, a fim de evitar incidentes, procurando sempre um comportamento que a afaste de sofrimentos físicos e psicológicos. Para tal o internado não pode esquecer o padrão de deferência obrigatório nas suas interacções sociais, nomeadamente com a equipa dirigente. Esse processo de mortificação diferente de individuo para individuo, culminará com uma postura semelhante de “controlado”, nos reclusos independentemente dos seus temperamentos, diferenças, idades e capacidades.
Quando penso nas instituições totais lembro-me estranhamente do famoso Programa/Concurso “BIG BROTHER” e penso que Goffman o poderia integrar no quarto tipo de Instituição total.
Com este exemplo pretendo referir uma experiência actual, visionada televisivamente e em que podemos percepcionar o quão difícil é articular identidades, superar conflitos, tensões, viver em grupo, ter lucidez nas emoções e sentimentos expostos aos internos e ao mundo, num espaço encenado, que tinha por finalidade a atribuição de um prémio. Apesar de tudo, era uma clausura voluntária, temporal, num determinado espaço (com algumas “mordomias”), sujeito às pressões típicas desses fechamentos. No entanto todos os participantes mantiveram objectos pessoais (dentro de certa limitação) e, continuavam a ter a sua vida real estruturada no exterior, com a rede de amigos e familiares.
Com este exemplo, que pode parecer ridículo, pelo ridículo que um programa deste tipo contém em si próprio, pretendo referir o quão duro é viver, sem intimidade, uma rotina diária em grupo, dias a fio, em que se perde a noção de tempo. E, se no caso do programa tal era um jogo, no sistema prisional é realidade. No entanto chamou-me a atenção pela similitude de emoções, dificuldades e tensões, muito embora a equipa de controlo e administração estivesse ausente, apenas comandava em voz off e, com delicadeza.
Parece-me portanto difícil organizar instituições totais, sobretudo as que funcionam como punitivas e pretendem ter um papel de (re)educação e (re)inserção.
Pode parecer violento a forma como os jovens de um Centro Educativo são admitidos e acolhidos. Todo o “despir-se” de si próprios pode significar uma dura desfiguração pessoal. Afinal o que vão ser a partir do dia da admissão? Um “outro” falseado? Talvez! Mas, sem defender estes processos, compreendo que esta admissão marca o inicio de uma nova etapa que o indivíduo vai viver, como penalização por algo errado que cometeu. Para mim, o mais difícil, e sem duvida o que deveria constituir grande preocupação destes Centros Educativos é pensar como o jovem se poderá inserir socialmente sem cair nos mesmos erros anteriores. Ele tem que se estruturar interiormente para tal…mas, e no exterior?
Eles não têm as famílias e os amigos do “Big Brother” à espera!
A "recuperação" do preso não passará pela manutenção das referências com o mundo exterior, tais como, a família, o meio de trabalho, o bairro onde reside? Mas, e se essas referências não existem? E, se forem referências nefastas?
Apesar de tudo considero importante que os reclusos vivam em boas condições de higiene, saúde e conforto. Estão privados de liberdade mas não de serem ser humanos com dignidade.
Defendo que, sobretudo aos adolescentes e jovens menores, que estão talvez com mais capacidade de mudança (apesar da pouca maturidade), se deve dar maiores condições de desenvolvimento pessoal.
16-Jul- 2007
A Ciência
A CIÊNCIA, a ciência, a ciência…
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço dado ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa
15-Jul- 2007
Sugestão
Foi-me dada a boa sugestão de ler um post no Blog Criancices (http://criancices.blogspot.com/2007_01_01_archive.html),que complementa a reflexão do meu post anterior.A Rosa Silvestre, para mim corporalmente desconhecida, tem escrito posts de grande qualidade, que eu recomendo. Obrigada pela participação…
13-Jul- 2007
Para além do espanto…a indignação
Às vezes sinto um vazio enorme, uma impotência desconcertante, um espanto angustiante e questiono-me: Mas, afinal o trabalho desenvolvido durante um ano lectivo surte algum impacto?…
Após as representações das crianças na Festa de fim de ano do Jardim de Infância (onde trabalhava na altura), seguiu-se um momento de refeição colectiva ao ar livre entre crianças, familiares e pessoal docente e não docente da instituição. Esse espaço exterior tinha sido preparado para a ocasião, com um palco decorado e “encenado”. Também balões e bandeirinhas decoravam o recinto, e recuado estavam as mesas do lanche.
Talvez seja de referir que as participações das crianças incidiram sobre a importância dos valores como a paz, a solidariedade, a amizade, e o respeito pelos outros e pelo meio ambiente.
È aqui que entra a minha surpresa e simultânea desolação.
Enquanto os adultos se deliciavam com os petiscos e conversavam uns com os outros, parece que aquele local tinha sido invadido por vândalos. As 74 crianças estavam imparáveis e começaram a arrancar os balões, a rasgar as bandeirinhas, a retirar os adereços do teatro, a rasgar cartazes, a arrancar os plásticos que forravam a parte inferior do palco…um espectáculo indescritível e, em nada pacífico! Tentei intervir, travar a “loucura”, afinal estávamos numa escola e senti que aquelas atitudes eram uma completa deseducação, uma falta de civismo . Os pais e familiares olhavam e continuavam serenamente, a sorrir, saboreando o caldo verde, os rissóis, os bolinhos…O chão foi ficando coberto de lixo…a ânsia de destruir era visível. Senti-me impotente mas terrivelmente mal. Será que o conceito de Festa destas pessoas passa por estas atitudes? Isto é o exemplo acabado de falta de civismo e de cidadania.
Todos estes adultos esqueceram que vivemos em sociedade e para que todos nos possamos entender é necessário termos comportamentos pautados por um conjunto de regras. A cidadania começa pela compreensão de quais são os nossos direitos e os nossos deveres e pela tomada de responsabilidade perante aquilo que fazemos.
Afinal o que falta é mesmo educação para a cidadania, ainda para mais numa instituição de socialização e de formação, como é a escola. E, sem duvida que as componentes de uma educação para a cidadania estão abrangidas no emblemático conjunto de aprendizagens fundamentais, referido no relatório Delors pelos quatro pilares da Educação: - aprender a conhecer; aprender a fazer, aprender a ser; aprender a viver juntos.
Por desabafo escrevi este texto e, dialogando com as colegas docentes, dessa instituição, expressei a minha preocupação. Sorriram e disseram: “É sempre assim!…é festa!…
Ah!…fiquei esclarecida!…Festas destas, não obrigada!
12-Jul- 2007
Mãe velha
Mãe, quem me dera ter-te velha, ao meu lado. Assim, teu corpo deixou de envelhecer, apenas a tua alma vai crescendo na invisibilidade eterna de viveres em meu coração. E, como vives!…Este é mais um poema para ti.
Vai-vem
Involuntariamente ausente
Emergiste na minha saudade presente
Mas eras só um passado
Como repartir contigo o presente,
esta alegria, quente, quente?
Involuntariamente presente
Senti a alegria gelar
Senti que a vida que vivi
Não te transportava aqui
Antes a um passado…além…
Involuntariamente vivo num vaivém
11-Jul- 2007
Velhice?
É, neste mês, que completarei mais uma ano de vida. Tal significa ficar mais velha, sem, necessariamente, entrar na velhice. Embora não me preocupe com essa soma de anos, dou por mim a olhar-me ao espelho…a reparar que os anos esculpiram o meu rosto de baixos-relevos. Ou, como refere Teixeira de Pascoaes (falando de uns campónios), “os sorrisos da mocidade dormem nas rugas do seu rosto – sepulcro de mortas alegrias.”
Quando tenho saudades da juventude sorrio; é uma forma de revisitar as rugas marcadas, é como pôr flores na sepultura.
E, como diz Rubem Alves “toda a saudade é uma espécie de velhice”.
Afinal, estarei na velhice?
Se estiver, continuo com o pensar de Rubem Alves, “A velhice tem uma beleza que lhe é própria. A beleza das velhas árvores é diferente da beleza das árvores jovens.”
7-Jul- 2007
Alegrias
Devorado
A alegria de ser eleito
A alegria de ser notado
A alegria de ser perfeito
A alegria de ser devorado
Alexandre O’Neill
(Carlos e meu filho Cláudio)
Quais são as tuas alegrias ?…São as tuas! Mas, porque são para ti um bem, são alegrias para mim, também!
Sei que é alegria ver-te sorrir assim. Teres tempo de me olhar, de me beijar e acariciar.
És já homem…grande…forte…filho em meu coração. As alegrias de mãe nascem de pequeninos gestos…sorrisos sinceros, abraços envolventes e por vezes basta um olhar.>
Tira os óculos, solta as ondas do teu cabelo e vem aconchegar a tua cabeça no meu regaço de mãe. Partilha-me o teu sorrir.
Alegria é ser mãe!