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18-Jul- 2007

Instituições…Totais

Segundo Goffman, “uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada". Essas instituições totais não permitem qualquer contacto entre o internado e o mundo exterior, até porque o objectivo é excluí-lo completamente do mundo originário, a fim de que o internado absorva totalmente as regras internas.
Essas instituições podem ser divididas em cinco tipos:

1.      “instituições criadas para cuidar das pessoas que, segundo se pensa, são incapazes e inofensivas”

2.      “locais estabelecidos para cuidar de pessoas consideradas incapazes de cuidar de si mesmas e que são também uma ameaça à comunidade, embora de maneira não intencional…”

3.      instituição total organizada para “proteger a comunidade contra perigos intencionais, e o bem-estar das pessoas assim isoladas não constitui o problema imediato…”

4.      “instituições estabelecidas com a intenção de realizar de modo mais adequado alguma tarefa de trabalho, e que se justificam apenas através de tais fundamentos instrumentais”

5.      “os estabelecimentos destinados a servir de refúgio do mundo, embora muitas vezes sirvam também como locais de instrução para os religiosos”

 Estes meus comentários incidirão sobre as instituições totais, vulgarmente chamadas de "prisões" ou "Centros Educativos de menores", que correspondem à terceira definição de Goffman em que os reclusos estão privados de liberdade por punição.

Nestes locais temos um grande grupo de internados (grupo controlado) e uma pequena equipa de supervisão (grupo dirigente). O internado vive na instituição e tem contacto restrito com o mundo existente fora das suas paredes.
Quando o indivíduo é admitido pela instituição chega com uma “cultura aparente”, que deve ser “destreinada”.
No momento de entrada, o aprisionado será sujeito a um momento de privação da sua aparência usual e dos seus objectos pessoais. Normalmente é um processo de admissão padronizado em que o indivíduo  "recebe um número", é-lhe tirada  fotografia, impressões digitais, distribuídas roupas da instituição, resumindo, um verdadeiro processo de profanação do próprio eu e, de perda de identidade. Na realidade ele ficará circunscrito a um lugar fechado, onde terá que realizar todo tipo de aspectos que no exterior ocupam diferentes lugares. Por outro lado, está sob forte controlo, realizando em conjunto grande parte das actividades e rotinas segundo regras e horários rigorosos e sem direito à intimidade.
O processo de admissão  desenvolve “as boas vindas” quer pela equipa de dirigentes, quer pelo grupo de reclusos. Pelo  testemunho que tive oportunidade de ouvir pelo dirigente de um Centro Educativo, parece haver por parte dos técnicos e dos monitores um acompanhamento mais sistemático dos recém-chegados por forma a “enquadrá-los” de forma “arrumada”. Por outro lado o grupo dos internados  procura mostrar ao novo elemento como ele tem uma posição baixa.       
Podemos considerar, segundo Goffman que a pessoa em causa inicia um "processo de mortificação do eu" que pode manifestar-se com uma perda do sentido de segurança pessoal, que a leva a afastar-se de problemas, a fim de evitar incidentes, procurando sempre um comportamento que a afaste de sofrimentos físicos e psicológicos. Para tal o internado não pode esquecer o padrão de deferência obrigatório nas suas interacções sociais, nomeadamente com a equipa dirigente. Esse processo de mortificação diferente de individuo para individuo, culminará com uma postura semelhante de “controlado”, nos reclusos independentemente dos seus temperamentos, diferenças, idades e capacidades.

Quando penso nas instituições totais lembro-me estranhamente do famoso Programa/Concurso “BIG BROTHER” e penso que Goffman o poderia integrar no quarto tipo de Instituição total.
Com este exemplo pretendo referir uma experiência actual, visionada televisivamente e em que podemos percepcionar o quão difícil é articular identidades, superar conflitos, tensões, viver em grupo, ter lucidez nas emoções e sentimentos expostos aos internos e ao mundo, num espaço encenado, que tinha por finalidade a atribuição de um prémio. Apesar de tudo, era uma clausura voluntária, temporal, num determinado espaço (com algumas “mordomias”), sujeito às pressões típicas desses fechamentos. No entanto todos os participantes mantiveram objectos pessoais (dentro de certa limitação) e, continuavam a ter a sua vida real estruturada no exterior, com a rede de amigos e familiares.
Com este exemplo, que pode parecer ridículo, pelo ridículo que um programa deste tipo contém em si próprio, pretendo referir o quão duro é viver, sem intimidade, uma rotina diária em grupo, dias a fio, em que se perde a noção de tempo. E, se no caso do programa tal era um jogo, no sistema prisional é realidade. No entanto chamou-me a atenção pela similitude de emoções, dificuldades e tensões, muito embora a equipa de controlo e administração estivesse ausente, apenas comandava em voz off e, com delicadeza.

Parece-me portanto difícil organizar instituições totais, sobretudo as que funcionam como punitivas e pretendem ter um papel de (re)educação e (re)inserção.
Pode parecer violento a forma como os jovens de um Centro Educativo são admitidos e acolhidos. Todo o “despir-se” de si próprios pode significar uma dura desfiguração pessoal. Afinal o que vão ser a partir do dia da admissão? Um “outro” falseado? Talvez! Mas, sem defender estes processos, compreendo que esta admissão marca o inicio de uma nova etapa que o indivíduo vai viver, como penalização por algo errado que cometeu. Para mim, o mais difícil, e sem duvida o que deveria constituir grande preocupação destes Centros Educativos é pensar como o jovem se poderá inserir socialmente sem cair nos mesmos erros anteriores. Ele tem que se estruturar interiormente para tal…mas, e no exterior?
Eles não têm as famílias e os amigos do “Big Brother” à espera!
A "recuperação" do preso não passará pela manutenção das referências com o mundo exterior, tais como, a família, o meio de trabalho, o bairro onde reside? Mas, e se essas referências não existem? E, se forem referências nefastas?
Apesar de tudo considero importante que os reclusos vivam em boas condições de higiene, saúde e conforto. Estão privados de liberdade mas não de serem ser humanos com dignidade.
Defendo que, sobretudo aos adolescentes e jovens menores, que estão talvez com mais capacidade de mudança (apesar da pouca maturidade), se deve dar maiores condições de desenvolvimento pessoal.

 

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