Ser professor
Muitas vezes dou por mim a pensar na seriedade profissional dos docentes. Vejo-os quase sempre ocupados com papeis. Preenchem formulários, redigem ofícios, elaboram caracterizações, fazem actas, planos, relatórios e…projectos! Chego a pensar que, toda aquela panóplia de documentos, são uma inutilidade porque são elaborados por obrigações legais e burocracias internas, quase tudo por medo à inspecção. Sim, a inspecção é o "lobo mau" que faz os professores agirem, não por inteligência mas, por receio. Para mim, os documentos só fazem sentido se forem autênticos instrumentos de trabalho. Os projectos curriculares de turma devem ser documentos sérios de orientação para os professores. O projecto educativo do Agrupamento deveria ser algo vivido por toda a comunidade para ser genuíno e promissor. Sei que poderão dizer que esta forma estruturada de gestão escolar não é partilhada por todos. Concordo. Mas, acho a maioria dos professores muito apáticos, acríticos e, até mesquinhos. Gasta-se muito tempo em questões internas que em nada vão favorecer o desenvolvimento dos alunos. A escola existe por causa deles e, por vezes, não parece!
E, é no meio destes e outros pensamentos ( que o bom senso me leva a não expor)que fico a observar o empenho real dos docentes, a sua entrega aos alunos, a sua postura, a capacidade de reflexão, o entusiasmo…por isso me aborreço com pedidos de documentos ridículos e inertes. Tanto tempo mal gasto! Tanta energia mal canalizada!
Eu, tenho muito a aperfeiçoar. Esta minha convicção transforma a minha postura perante os alunos e faz-me perder tempo a "corrigir-me". O mundo evolui e tudo se transforma. Eu não posso ficar estruturalmente estagnada. Digo estruturalmente, porque há muitos docentes que frequentam acções de formação com temáticas sugestivas e modernas e, ficam sempre iguais, dão pinceladas de actualidade empregando palavras da moda mas, "por dentro", ficam imutáveis.
Há dias em que me sinto mal. Não são as crianças que são insuportáveis, desatentas, desinteressadas e agressivas (também as há!). Eu, docente, não tive a melhor actuação. Nisso é que devo gastar o meu tempo.
"Aulas más são as que os rapazes não querem ouvir. Mas então – poderia eu defender-me – que culpa temos nós de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? é verdade que ás vezes a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o bom professor - e o meu drama resulta de que a mim só me interessa ser bom professor. Ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados; a não se lembrarem que lá fora é melhor. E foi o que eu ontem não consegui."in Diário de Sebastião da Gama.