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27-Oct- 2007

Ser professor

Muitas vezes dou por mim a pensar na seriedade profissional dos docentes. Vejo-os quase sempre ocupados com papeis. Preenchem formulários, redigem ofícios, elaboram caracterizações, fazem actas, planos, relatórios e…projectos! Chego a pensar que, toda aquela panóplia de documentos, são uma inutilidade porque são elaborados por obrigações legais e burocracias internas, quase tudo por medo à inspecção. Sim, a inspecção é o "lobo mau" que faz os professores agirem, não por inteligência mas, por receio. Para mim, os documentos só fazem sentido se forem autênticos instrumentos de trabalho. Os projectos curriculares de turma devem ser documentos sérios de orientação para os professores. O projecto educativo do Agrupamento deveria ser algo vivido por toda a comunidade para ser genuíno e promissor. Sei que poderão dizer que esta forma estruturada de gestão escolar não é partilhada por  todos. Concordo. Mas, acho a maioria dos professores muito apáticos, acríticos e, até mesquinhos. Gasta-se muito tempo em questões internas que em nada vão favorecer o desenvolvimento dos alunos. A escola existe por causa deles e, por vezes, não parece!

E, é no meio destes e outros pensamentos ( que o bom senso me leva a não expor)que fico a observar o empenho real dos docentes, a sua entrega aos alunos, a sua postura, a capacidade de reflexão, o entusiasmo…por isso me aborreço com pedidos de documentos ridículos e inertes. Tanto tempo mal gasto! Tanta energia mal canalizada!  

Eu, tenho muito a aperfeiçoar. Esta minha convicção transforma a minha postura perante os alunos e faz-me perder tempo a "corrigir-me". O mundo evolui e tudo se transforma. Eu não posso ficar estruturalmente estagnada. Digo estruturalmente, porque há muitos docentes que frequentam acções de formação com temáticas sugestivas e modernas e, ficam sempre iguais, dão pinceladas de actualidade empregando palavras da moda mas, "por dentro", ficam imutáveis.

Há dias em que me sinto mal. Não são as crianças que são insuportáveis, desatentas, desinteressadas e agressivas (também as há!). Eu, docente, não tive a melhor actuação. Nisso é que devo gastar o meu tempo.

"Aulas más são as que os rapazes não querem ouvir. Mas então – poderia eu defender-me – que culpa temos nós de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? é verdade que ás vezes a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o bom professor -  e o meu drama resulta de que a mim só me interessa ser bom professor. Ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados; a não se lembrarem que lá fora é melhor. E foi o que eu ontem não consegui."in Diário de Sebastião da Gama.

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17-Oct- 2007

Minha homenagem ao Stoer

Ter tido o privilégio de o conhecer foi para mim inolvidável. Mencionar o seu inquestionável valor como professor e o impulso dado ao trabalho científico na área das Ciências da Educação, seria uma injusta distracção. Não considerar as suas opiniões, seus saberes e estudos em matérias como a Multiculturalidade e teorias de exclusão social, seria insensatez. Mas, guardarei na memória, para além deste vasto conhecimento, a serenidade do seu olhar, a humildade (de quem é sábio), os laços que criava com os outros…também comigo. Fui sua aluna, senti realmente que, por trás do seu sorriso, havia um afecto natural e uma postura de abertura ao outro - aluno. Penso que se aproximava da visão de Paulo Freire, educação com amor. Rubem Alves também refere que“…os docentes, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor, intérpretes de sonhos.”

Sorte que tive em conhecê-lo!

Partiu…porque, como dizia o poeta José Gomes Ferreira, Viver sempre também cansa . Às vezes a vida surpreende-nos com cansaços corporais esgotantes, impossíveis de vencer. Aí temos que partir do corpo, deixando-nos em espírito entre os humanos.

Esta minha confissão termina com um poema, o tal poema. Uma pequena e muito humilde homenagem a este grande e querido homem.

 

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul

Ora é azul, nitidamente azul,

Ora cinzento, negro, quase-verde…

Mas nunca tem cor inesperada.

As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,

Não há flores que voe,

A lua não tem olhos

E ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

Sem imaginação.

 

E, há bairros miseráveis sempre os mesmos,

Discursos de Mussolini,

Guerras, orgulhos em transe,

Automóveis de corrida…

 

E obrigam-me a viver até à morte!

 

Pois não era mais humano

Morrer por um bocadinho,

De vez em quando,

E recomeçar depois,

Achando tudo mais novo?

 

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

Morrer em cima de um divã

Com a cabeça sobre uma almofada,

Confiante e sereno por saber

Que tu velavas, meu amor do Norte.

 

Quando viessem perguntar por mim,

Havias de dizer com teu sorriso

Onde arde um coração em melodia:

“Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

Por uma bagatela.

 

E virias depois, suavemente,

Velar por mim, subtil e cuidadosa,

Pé ante pé, não fosses acordar

A Morte ainda menina no meu colo…

(texto escrito aquando do seu falecimento - Raquel Alves/2005)

 

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8-Oct- 2007

Stephen R. Stoer

                                           A Universidade do Porto tem vindo a homenagear, anualmente, personalidades que se destacaram na UP quer pela qualidade do seu trabalho, quer pelo seu empenho e contributo para o desenvolvimento do ensino e investigação.
Em anos transactos chamou a atenção da comunidade académica e do público em geral para Abel Salazar, Marques da Silva (2005), Magalhães Basto (2005/2006) e Augusto Nobre (2006/2007).
No ano de 2007, e na continuidade desta iniciativa, a Universidade do Porto elegeu como figuras a homenagear Manuela Malpique e Stephen R. Stoer. Assim, entre 18 de Outubro e 3 de Dezembro estarão patentes, no edifício da Biblioteca Almeida Garrett exposições sobre a vida e obra destes professores.
Para mim “Steve” é um homem que jamais esquecerei. Foi um professor marcante.

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29-Sep- 2007

Um futuro empresário…

Pai jovem, bom aspecto, perfumado, cabelo com gel, estaciona o seu Mercedes à porta do Jardim de Infância e leva o seu filho de 3 anos até à entrada da sala. A criança vem a chorar…é o seu terceiro dia de escola. A educadora aborda a criança mas, o pai refere que vai falar com ela. Abaixa-se em frente ao menino e diz-lhe: " O que é que o pai te disse? Vens para a escola para te fazeres um homem, para depois ficares com a empresa do pai. Está bem? Vamos lá…não chores!"

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23-Sep- 2007

Sugestão pensante

A Ana Neves, que conheci virtualmente há alguns anos, tem um post - A TRADIÇÃO AINDA É O QUE ERA? que todos os professores deviam ver, rir e meditar.
Eu adorei-o!

visitem  http://mestrediario.blogspot.com

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21-Sep- 2007

PATRÍCIO

Toque de saída da escola
Teu recolher obrigatório
Regresso a casa
Casa…campo de concentração
Onde,és escravo de um lar,
prisioneiro de uma pobreza,
vítima de loucas decisões
abandonado a ti próprio.

E só, na confusão do caos e do nada
Enfiado em trapos sujos de dias
és alimento de parasitas…
sem alimento próprio.
Até quando?…
Enquanto sobreviveres?

Aguardas um toque de saída de casa!

 Raquel Alves (2003)

 

Hoje, reencontrei o Patricio nos meus desabafos escritos e misturei-os com tudo o que aprendi com ele e ficou guardado no coração. Senti um vazio… Fiquei deveras angustiada por não saber onde ver esta criança meiga e sofrida. A vida e toda a sua sobrevivência levaram-no para o internato de uma instituição. Deve ter crescido,  passaram 4 anos!…Tenho saudades das conversas ingénuas e dos comentários sensatos com que me premiava cada dia que o levava ao "colégio". Parava para lanchar com ele e, ele para devorar comida comigo. Eu tinha apetite, ele tinha fome!…Hoje olho o seu rosto sorridente na foto e cubro o meu de lágrimas.
Há dias assim em que somos invadidos de saudade e nos questionamos pelo que fizemos.

 

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10-Sep- 2007

Para um recomeço…

Este post é para todos os colegas que, como eu, chegam à escola com vontade de se aperfeiçoarem, com abertura de espírito, com empenho e determinação. Para eles as férias não foram só para"torrar" o corpo e as ideias…foram para refrescar o nosso interior, trocar o cansaço por ânimo, esquecer a mesquinhez e vir com um olhar repleto de novos horizontes, janelas abertas à poesia.
E, quando assim chegamos, mas tudo está igual, sentimos um embate. Pior é ver que não houve renovação, que não querem renovação! E, esta falta de entusiasmo, de alma, de vontade de construir, olha-nos como uma ameaça. E, podem criticar o sistema, dizer que a desmotivação é propagada pelo Ministério da Educação, que não há material, que os ordenados são baixos…BASTA!
Tenham imaginação! Já que a não têm para as próprias vidas, nem para a preparação das aulas, vejam se têm para melhores queixas… 

Para me consolar, refugio-me nas palavras de Sebastião da Gama.

 "Ensinar e ser.Antes de tudo, ser. A vida do professor deve ser (tanto quanto possivel, pobres de nós!) luminosa e branca. Mais que não ser ignorante, importa não ser mau, nem desonesto, nem impuro…"

 "-Tens muito que fazer?
  - Não. Tenho muito que amar.
(Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isto assim cansa e mata;morrer-se sempre se morre:e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansado.)"

Devo recomeçar…
 

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21-Jul- 2007

Uma paixão chamada Rubem Alves

Descobri Rubem Alves há cerca de 5 anos. Não me lembro muito bem como foi…li uma citação dele num texto que abordava aspectos educativos. O meu encanto foi tal que, ao ver à venda o seu livro “Estórias maravilhosas de quem gosta de ensinar”, o comprei de imediato. A partir dessa leitura fiquei apaixonada pelas suas ideias e visões do mundo. Eu sempre tive uma postura mais poética e sensível da vida. Sempre achei importante observar e reflectir. A minha postura como educadora estava para além das pedagogias, passava pelo amor. E identifiquei-me completamente com Rubem quando li que “educador e seus discípulos estão ligados por laços de amor”.
Não sabia bem a sua biografia, nem tão pouco o seu aspecto físico, a sua idade…mas, quando se está apaixonada, nada disso importa por não ser o essencial, mas,…Descobri que é um velho sábio que já desfez 73 anos, teve formação religiosa protestante e chegou a formar-se em Teologia. Foi considerado subversivo e, por isso, perseguido o que o levou a ir com a família para os Estados Unidos. Lá formou-se em Filosofia. Regressou ao Brasil nos anos 70 do século passado e, foi professor na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). No início da década de 80, tornou-se Psicanalista. E, escreve sem nunca ter planeado fazê-lo…é um dos seus prazeres.
Para além de tudo isto é uma curiosa (para mim agradável) coincidência ter uma filha Raquel Alves.
Ontem vi-o, pela primeira vez, em imagens que hoje aqui partilho.


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15-Jul- 2007

Sugestão

Foi-me dada a boa sugestão de ler um post no Blog Criancices (http://criancices.blogspot.com/2007_01_01_archive.html),que complementa a reflexão do meu post anterior.A Rosa Silvestre, para mim corporalmente desconhecida, tem escrito posts de grande qualidade, que eu recomendo. Obrigada pela participação…

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13-Jul- 2007

Para além do espanto…a indignação

Às vezes sinto um vazio enorme, uma impotência desconcertante, um espanto angustiante e questiono-me: Mas, afinal o trabalho desenvolvido durante um ano lectivo surte algum impacto?…
Após as representações das crianças na Festa de fim de ano do Jardim de Infância (onde trabalhava na altura), seguiu-se um momento de refeição colectiva ao ar livre entre crianças, familiares e pessoal docente e não docente da instituição. Esse espaço exterior tinha sido preparado para a ocasião, com um palco decorado e “encenado”. Também balões e bandeirinhas decoravam o recinto, e recuado estavam as mesas do lanche.
Talvez seja de referir que as participações das crianças incidiram sobre a importância dos valores como a paz, a solidariedade, a amizade, e o respeito pelos outros e pelo meio ambiente.
È aqui que entra a minha surpresa e simultânea desolação.
Enquanto os adultos se deliciavam com os petiscos e conversavam uns com os outros, parece que aquele local tinha sido invadido por vândalos. As 74 crianças estavam imparáveis e começaram a arrancar os balões, a rasgar as bandeirinhas, a retirar os adereços do teatro, a rasgar cartazes, a arrancar os plásticos que forravam a parte inferior do palco…um espectáculo indescritível e, em nada pacífico! Tentei intervir, travar a “loucura”, afinal estávamos numa escola e senti que aquelas atitudes eram uma completa deseducação, uma falta de civismo . Os pais e familiares olhavam e continuavam serenamente, a  sorrir, saboreando o caldo verde, os rissóis, os bolinhos…O chão foi ficando coberto de lixo…a ânsia de destruir era visível. Senti-me impotente mas terrivelmente mal. Será que o conceito de Festa destas pessoas passa por estas atitudes? Isto é o exemplo acabado de falta de civismo e de cidadania.
Todos estes adultos esqueceram que vivemos em sociedade e para que todos nos possamos entender é necessário termos comportamentos pautados por um conjunto de regras. A cidadania começa pela compreensão de quais são os nossos direitos e os nossos deveres e pela tomada de responsabilidade perante aquilo que fazemos.
Afinal o que falta é mesmo educação para a cidadania, ainda para mais numa instituição de socialização e de formação, como é a escola. E, sem duvida que as componentes de uma educação para a cidadania estão abrangidas no emblemático conjunto de aprendizagens fundamentais, referido no relatório Delors pelos quatro pilares da Educação: - aprender a conhecer; aprender a fazer, aprender a ser; aprender a viver juntos.
Por desabafo escrevi este texto e, dialogando com as colegas docentes, dessa instituição, expressei a minha preocupação. Sorriram e disseram: “É sempre assim!…é festa!…

Ah!…fiquei esclarecida!…Festas destas, não obrigada!

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